
Por Maria Salas
Há artistas que permanecem porque suas músicas envelhecem. E há aqueles que permanecem justamente porque parecem não envelhecer. Belchior pertence ao segundo grupo. Suas inquietações, seus deslocamentos, seus conflitos e sua maneira de olhar para o Brasil continuam encontrando eco em diferentes gerações. E é esse encontro que o Sesc Mogi das Cruzes propõe neste fim de semana, mais precisamente neste sábado (29).
No centro da programação está o projeto Belchior 80: A palavra incendeia, que transforma a obra do compositor cearense em ponto de partida para música, artes visuais e experimentações. E quem faz o convite para essa viagem é o ator e compositor Silvero Pereira, que sobe ao palco, às 19 horas, para o espetáculo Silvero Interpreta Belchior, na Geodésica.
Em sua leitura, Silvero não pretende apenas cantar Belchior. A proposta é atravessar as canções a partir de sua própria trajetória como artista cearense, criando aproximações entre suas vivências e os temas que marcaram a obra do compositor. É uma espécie de conversa entre dois artistas de diferentes tempos, mas ligados por uma mesma origem e por uma relação intensa com a palavra.
O resultado promete colocar em evidência a dimensão poética, política e humana de um repertório que nunca se limitou a contar histórias de uma época. Belchior falava de juventude, pertencimento, deslocamento, amor, América Latina, sonhos e desencantos. Falava, sobretudo, de um Brasil em transformação — e talvez seja justamente por isso que suas canções continuem tão presentes.
Os ingressos para a apresentação de Silvero estão esgotados, mas a homenagem não termina ali.
No sábado (29) e no domingo (30), o público poderá mergulhar em outras dimensões do universo de Belchior. Às 11 horas, a oficina Grafia da Canção: Cartazes com lettering a partir de Belchior, com Danise Eliom, aproxima palavra, desenho e memória musical. A proposta é transformar versos e referências do compositor em cartazes, explorando técnicas de lettering e a chamada estética vernacular.
Às 14 horas, a música ganha forma novamente na oficina Alucinação Gráfica: audição e releitura de capas de disco, com Tutano Nômade e Leandro Carvalho. O ponto de partida é o álbum Alucinação, um dos trabalhos fundamentais da carreira de Belchior e que completa 50 anos em 2026.
A ideia é ouvir o disco e, a partir dele, recriar visualmente suas capas utilizando técnicas manuais de impressão, como estêncil e carimbo. É uma maneira interessante de perceber que a obra de um músico também pode existir para além do som: está nas imagens, nas palavras, na estética e nas memórias que suas canções provocam.
Quando a canção vira carnaval
No domingo, às 16 horas, a homenagem muda de ritmo. O bloco Ano Passado Eu Morri Mas Esse Ano Eu Não Morro ocupa a Geodésica para uma celebração que leva Belchior para o território do carnaval.
Canções como Apenas um Rapaz Latino-Americano, Como Nossos Pais e Alucinação aparecem em arranjos que atravessam funk, maracatu, frevo e samba. O repertório ainda abre espaço para músicas autorais e obras de outros artistas que dialogam com o universo do compositor.
É uma escolha que combina com Belchior. Afinal, sua obra sempre carregou movimento. Suas músicas falam de quem parte, de quem procura um lugar, de quem olha para o passado sem deixar de imaginar o futuro. Levar essas canções para a rua, para o bloco e para o carnaval é, de certa forma, devolvê-las ao corpo.

Foto: Melissa Guimarães
Embora Belchior seja o grande destaque, o último fim de semana de agosto no Sesc Mogi não se resume à música. A programação também passa pelo teatro, pela literatura, pelo meio ambiente e pelas práticas corporais.
No sábado, às 16 horas, Viktor & Brutus, da The Pambazos Bros, leva para a Tenda uma história protagonizada por um clown e uma arara em forma de boneco. A montagem mistura humor, mágica, clarinete, sapateado flamenco, tango balkan e equilíbrio para discutir, de maneira lúdica, relações de poder.
Para as crianças, o Telhado de Histórias, do Grupo Raconto, continua transformando a Alameda em espaço de encontro com os livros, aos sábados e domingos, às 10 horas e às 13h30.
No domingo, a programação inclui ainda Hatha Yoga, às 10 horas, com Andrea Yoshinaga; a oficina Solo vivo, às 14 horas, no Centro de Educação Ambiental; e o espetáculo Dinossauros do Brasil, da Pia Fraus, às 15 horas, no Parque Max Feffer.














