
Silvia Chimello
A queda nas vendas, o aumento do endividamento das famílias, a inadimplência, o fechamento de empresas e a dificuldade para encontrar mão de obra especializada formam um cenário de preocupação para o comércio de Mogi das Cruzes. Os lojistas enfrentam custos elevados e uma concorrência cada vez maior das plataformas de vendas pela internet, ao mesmo tempo em que os consumidores têm menor capacidade de compra.
O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Mogi das Cruzes (Sincomércio), Valterli Martinez, afirma que a combinação desses fatores pode ampliar as dificuldades enfrentadas pelo setor e até levar a um quadro de “recessão” nos próximos meses.
Apesar de considerar o “cenário preocupante”, Martinez avalia que não há, a curto prazo, uma saída capaz de reverter a situação, que, segundo ele, “pode ficar ainda mais complicada para o setor com o fim da jornada de trabalho 6X1

Presidente do Sincomércio de Mogi das Cruzes, Valterli Martinez (Foto: reprodução internet)
Vendas abaixo da expectativa
A retração do consumo já foi percebida em datas consideradas importantes para o comércio. Um dos exemplos citados pelo presidente do Sincomércio foi o Dia dos Pais, realizado neste mês.
A expectativa inicial dos comerciantes era de crescimento de até 10% nas vendas em relação ao mesmo período de 2025. O resultado, porém, frustrou as expectativas, já que as vendas ficaram abaixo dos 5%.
Além do crescimento menor que o esperado, Martinez chama a atenção para a redução do valor gasto pelos consumidores em cada compra. Segundo ele, no Dia dos Pais do ano passado, o ticket médio dos presentes ficava entre R$ 300 e R$ 500. Neste ano, a média caiu para uma faixa entre R$ 180 e R$ 240.
Para o dirigente, esse comportamento está diretamente relacionado à situação financeira das famílias, que têm comprometido uma parcela maior da renda com dívidas e despesas básicas.
Endividamento atinge consumo básico
De acordo com Martinez, levantamentos utilizados pelas entidades representativas do comércio mostram que o endividamento deixou de estar concentrado apenas em compras de maior valor e passou a envolver também despesas essenciais.
“A pessoa vai ao mercado para fazer a compra para casa e acaba parcelando no cartão, porque os preços estão altos. No mês seguinte vai ter dificuldade para pagar a mensalidade do cartão e fazer novamente a compra para casa. Os juros são altos e fica cada vez mais difícil quitar as dívidas”, exemplificou.
O presidente do Sincomércio afirma que os números observados em Mogi acompanham um cenário nacional de elevado comprometimento da renda das famílias. Dados citados por ele, com base em levantamentos da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), apontam que cerca de 82% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida.
O índice inclui contas em aberto, boletos, financiamentos e dívidas no cartão de crédito. A inadimplência também preocupa: aproximadamente 29,8% das famílias têm contas em atraso, enquanto 12,2% dos consumidores afirmam que não conseguirão quitar os débitos atrasados. O cartão de crédito aparece como principal modalidade de endividamento, presente em mais de 84% dos casos apontados nos levantamentos mencionados.
Martinez também cita dados levantados pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Mogi das Cruzes, com informações de serviços de proteção ao crédito.
“Temos um levantamento que fizemos pela CDL de Mogi das Cruzes, que detém o Serasa e o SPC Brasil, quando vimos os números ficamos um pouco assustado. No ponto de vista do endividamento, tem famílias endividada por R$ 500. Isso tem uma preocupação, porque é um valor que parece baixo, mas faz a pessoa perder o crédito, perde o poder do consumo. Quando você vai fazer análise do que ele gastou no cartão de crédito são nos atacadistas, no atacarejo e são produtos de primeira essência, que é comida e é uma situação está bem grave”, relata.
Desenrola e comprometimento da renda
O dirigente também critica os efeitos dos programas de renegociação de dívidas, entre eles o chamado “Desenrola”. Martinez explica que, nos casos em que os valores das renegociações são descontados diretamente da folha de pagamento, sobra menos dinheiro para as despesas mensais.
“Tivemos casos de funcionários que receberam só R$ 150 neste mês. Como a pessoa vai viver sem fazer novas dívidas?”, questiona.
Para ele, a redução do dinheiro disponível para o consumo acaba criando um ciclo que afeta tanto os consumidores quanto os comerciantes.
Lojas físicas enfrentam concorrência digital
Além da menor capacidade de consumo das famílias, o comércio tradicional enfrenta uma transformação no comportamento dos consumidores. As lojas físicas passaram a disputar espaço com grandes magazines e plataformas digitais, inclusive empresas internacionais que conseguem oferecer preços mais baixos em determinadas categorias.
Martinez considera que essa concorrência coloca pressão adicional sobre os estabelecimentos físicos, que precisam arcar com aluguel, salários, encargos trabalhistas, impostos e outros custos operacionais.
A crise no setor pode ser observada com o encerrado das atividades de grandes magazines, como no caso da Casas Bahia. A empresa fechou 298 lojas em agosto de 2026, o equivalente a cerca de 28% de sua rede física, em meio ao processo de recuperação judicial e à reestruturação de dívidas.
O dirigente do Sincomércio explica que Mogi das Cruzes também pode perder unidades da Casa Bahia. Atualmente a cidade possui duas lojas da rede, uma no Centro e outra no Mogi Shopping, e ele não descarta a possibilidade de fechamento de uma delas. “O que estamos sabendo e que será feita uma pesquisa para ver qual das duas é mais viável. A que estiver dando lucro menos deve ser fechada”, prevê.
Martinez também cita o crescimento do número de empresas em recuperação judicial. Segundo dados mencionados por ele, o Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas nessa situação, número considerado histórico.
Adaptação ao comércio digital
Diante da mudança no perfil do consumidor e da concorrência das plataformas digitais, Martinez observa que muitos comerciantes estão reduzindo estruturas físicas e ampliando a presença no comércio eletrônico.
O Sincomércio, segundo ele, busca apoiar essa adaptação por meio de parcerias com o Sebrae e outras instituições. Entre as iniciativas está o projeto Loja do Futuro, voltado à capacitação dos empresários para melhorar a atuação no ambiente digital. “Existe muito interesse por parte dos lojistas em se renovar e buscar outros caminhos. E estamos dando esse suporte para todos os interessados”, conta Valterli.
Ele ressalta que a entidade também procura criar canais para ampliar a presença dos comerciantes locais nas plataformas digitais. “Nós estamos procurando canais aqui para gente viabilizar as vendas. Por exemplo, estamos em contato com o TikTok para fazer isso. Estamos fazendo isso para tentar ajudar os comerciantes locais, que já estão recebendo treinamento para vender para o Mercado Livre, para o TikTok, criando ferramentas para facilitar o uso do WhatsApp dentro de treinamentos”, explica
Segundo Martinez, a proposta é preparar os pequenos lojistas para utilizar ferramentas digitais não apenas como canais de divulgação, mas também como instrumentos de venda e relacionamento com os consumidores.
Menos vagas e falta de profissionais
Outro problema apontado pelo presidente do Sincomércio é a situação do mercado de trabalho. Segundo ele, o comércio de Mogi e da região continua tendo oportunidades, mas o número de vagas abertas diminuiu nos últimos meses.
No início do ano, seriam cerca de 5 mil vagas disponíveis. Atualmente, o número está próximo de 3 mil.
“De janeiro para cá, mais de 2000 vagas no comércio foram encerradas. Apesar de não haver procura para vagas, mesmo assim elas estavam abertas e agora foram reduzidas”, reforça.
Ao mesmo tempo, aponta uma contradição: mesmo com a redução das oportunidades, alguns segmentos continuam encontrando dificuldades para contratar profissionais.
O problema, segundo ele, está principalmente na falta de mão de obra especializada. Supermercados, por exemplo, enfrentam dificuldades para preencher funções como repositor e operador de caixa, mesmo oferecendo salários superiores ao mínimo.
Martinez afirma que houve melhora na remuneração de diversas funções e que atualmente os salários no setor ultrapassam R$ 2 mil, mas ainda assim existem dificuldades para encontrar candidatos com o perfil necessário.
Custo da contratação
O presidente do Sincomércio também critica o peso dos encargos trabalhistas e tributários sobre as empresas. Na avaliação dele, os custos dificultam a contratação e limitam a capacidade dos empresários de oferecer salários maiores.
“Se contrato uma pessoa por R$ 2mil, o custo dela para o empregador é de 4 mil, com os encargos trabalhistas”, exemplifica.
Além da folha de pagamento, ele alega que os empresários precisam arcar com despesas como aluguel, água, energia elétrica, tributos e outros custos operacionais.
“Os comerciantes têm ainda outros impostos para pagar, além dos custos operacionais. Atualmente são cobrados 50% a 60% de imposto em determinadas mercadorias, sem contar o aluguel, água, luz, entre outros gastos”, contabiliza.
Martinez também cita o aumento da informalidade que se observa entre os trabalhadores. O dirigente do Sincomércio associa isso à política de transferência de renda adotada pelo governo federal.
“Muitos beneficiários de programas sociais evitam o emprego formal para não correr o risco de perder os benefícios. Preferem trabalhar na informalidade, porque assim conseguem manter os repasses aumenta a renda com outras atividades”.
O dirigente também cita a expansão dos serviços de entrega como exemplo das mudanças no mercado de trabalho e no comportamento do consumidor. Segundo ele, algumas plataformas vêm ampliando a estrutura de distribuição e contratação de trabalhadores para atender ao crescimento das compras pela internet
Tem ainda o mercado de delivery de refeições, o aumento do número de motoristas por aplicativos, entre outras atividades que vem despertando interesse dos trabalhadores.
Mudança na jornada
A possível redução da jornada 6×1 é outro ponto de preocupação para o setor, segundo Martinez. Como entidade patronal, ele avalia que uma mudança no modelo de trabalho poderá representar aumento dos custos para os comerciantes e ampliar as dificuldades de contratação.
Para o presidente do Sincomércio, a medida deve acarretar mais custos para as empresas, por isso defende a ampliação do debate a respeito desse tema com o Congresso Nacional.
Alerta para risco de recessão
Diante da combinação de menor consumo, endividamento, concorrência digital, custos elevados, redução de vagas e dificuldades para encontrar profissionais qualificados, Martinez considera que o comércio precisa de mudanças rápidas para evitar um agravamento do cenário.
“Esse é um problema sério e gravíssimo de possível recessão. Se continuar nessa mesma forma, a gente não tem muito o que esperar”, alerta.
Apesar das dificuldades, o presidente do Sincomércio afirma que as entidades representativas do setor, em diferentes níveis, têm buscado diálogo com representantes políticos para discutir alternativas e medidas capazes de reduzir os impactos sobre empresas e trabalhadores.
A intenção, segundo ele, é encontrar caminhos para preservar a atividade comercial, estimular a geração de empregos e evitar que o cenário de retração se aprofunde.














