
Por Maria Salas
A música de Rui Ponciano atravessou diferentes momentos da história e da cultura de Mogi das Cruzes. Agora, sua trajetória também ganha as telas em “Arte InspirAção – Rui: O Trovador Urbano”, documentário dirigido pelo cineasta mogiano Rodrigo Campos, da Itapeti Filmes. Com as filmagens encerradas em junho, a produção está em fase de edição e pós-produção e tem previsão de pré-estreia ainda neste ano, em Mogi.
Em entrevista para a Vanguarda, Campos destaca que o filme acompanha os caminhos percorridos por Rui ao longo da vida, passando por lugares que ajudaram a construir sua identidade artística. Santo André, onde viveu parte da infância, São Paulo, Mogi das Cruzes e Paraty, no litoral do Rio de Janeiro, fazem parte desse percurso.
A proposta nasceu ainda durante a produção de outro documentário. Em 2024, Rodrigo dirigiu “Chaer: O Pirata Contemporâneo”, sobre o artista plástico Maurício Chaer, produção lançada em 2025. Rui participou daquele trabalho por meio de músicas que integram a trilha sonora e também pela relação de amizade com Chaer.
“Quando filmamos o documentário do Chaer, em 2024, depois que terminaram as gravações da música original que o Rui fez para o Chaer (Pirata Contemporâneo), já me deu essa vontade de fazer o projeto”, conta Rodrigo.
Foi a partir desse primeiro filme que surgiu a série “Arte InspirAção”, concebida para transformar em cinema as histórias de artistas que tiveram participação relevante na cultura do município. A ideia é construir uma coleção de longas-metragens dedicada a diferentes expressões artísticas. “A ideia é fazer uma série de longas-metragens sobre artistas que são muito relevantes aqui para a nossa cidade”, explica o diretor.
Da arte de Chaer à música de Rui
O primeiro filme da série mergulhou no universo das artes plásticas e na relação de Maurício Chaer com Mogi. Para o segundo longa, Rodrigo escolheu a música e uma personalidade que, segundo ele, reúne uma trajetória artística e de vida especialmente rica.
“Porque o Rui era uma figura muito da música aqui, muito importante para a gente, não só pelo legado que ele deixa para a cidade, mas também por toda a trajetória dele”, afirma.
O documentário percorre diferentes fases da vida e da produção musical de Rui. O roteiro foi organizado em capítulos que acompanham as transformações do artista e o contexto histórico em que elas aconteceram. A narrativa começa entre 1953 e 1967, período marcado pela infância e pelos primeiros contatos com a música, ainda em Santo André. Depois, chega aos anos de 1968 a 1978, quando o tropicalismo, a efervescência cultural e a repressão da Ditadura Militar atravessaram a produção artística brasileira e também a trajetória de Rui. Nesse período, o músico circulou por espaços culturais de Mogi e São Paulo e integrou grupos como Oel, ao lado de nomes como Rogério Duprat e Renato Teixeira.
A partir do final dos anos 1970, o documentário acompanha outra mudança de direção. Rui passa a buscar uma forma de vida mais distante dos grandes centros urbanos e vive na Praia Deserta, em Paraty, entre 1982 e 1983. Mais tarde, retorna de maneira definitiva às noites de Mogi, aproximando-se novamente dos grupos e espaços musicais que ajudaram a formar a cena cultural da cidade.
Uma “peregrinação” para contar uma vida
Se o primeiro filme da série teve Mogi como principal cenário, a história de Rui exigiu que a equipe colocasse a produção na estrada.
Rodrigo define o processo como uma verdadeira “peregrinação”. Para reconstruir a trajetória do músico, foi necessário visitar os diferentes lugares onde ele viveu, criou e se relacionou com a música. “Diferente um pouco do Chaer, o Chaer a gente focou muito aqui em Mogi das Cruzes, Suzano, nas cidades dos entornos. Agora, o filme do Rui foi uma peregrinação”, relata. A equipe esteve em Santo André, São Paulo, Mogi e Paraty. Um dos momentos mais desafiadores foi chegar à ilha onde Rui viveu, depois de viajar até Paraty.
“Acabamos visitando todos esses lugares. E a gente foi com ele até a ilha que ele morou”, conta o diretor. A dimensão da viagem também trouxe um desafio de produção. Com recursos provenientes do Programa de Fomento à Cultura (Profac), de Mogi das Cruzes, a equipe precisou conciliar o orçamento disponível com a necessidade de deslocamento e realização das filmagens em diferentes cidades. “É dar conta do recurso, atender o que a gente precisa e conseguir levar a equipe para esses lugares todos”, explica Rodrigo.
A ideia do filme, segundo Campos, começou a tomar forma em 2024, durante a produção do filme de Chaer. O projeto sobre Rui foi aprovado pelo Profac em 2025 e, desde julho ou agosto daquele ano, a equipe passou a trabalhar efetivamente na produção. Foram aproximadamente 13 meses de trabalho até a chegada à etapa atual, que ainda envolve edição e seguirá para a pós-produção.
O resultado, para Rodrigo, é uma obra que vai além da dimensão musical. A intenção é revelar também o processo criativo e as experiências que ajudaram a formar o artista. “Acho que vai ter um filme bem potente, com muita coisa interessante do processo criativo do Rui e também da trajetória rica musical dele e de vivência também”, afirma.
A presença de Rui no documentário é acompanhada por depoimentos de pessoas que fizeram parte de sua história. Entre os participantes estão Maurício Chaer, amigo do músico desde a infância, além dos músicos Tânia Mello, Paulo Betzler, Sandra Viana e Celso Andrade, o Celsinho.
As músicas também ocupam um papel central na narrativa. Canções como “Pico do Urubu”, “Casa de Pano”, “Lua Louca” e “Amanhece” integram o repertório do longa e ajudam a construir a atmosfera da história.
Ficha técnica
“Rui: O Trovador Urbano” tem direção, produção executiva, roteiro e montagem de Rodrigo Campos; produção de Renata Abreu; assistência de produção e decupagem de Sérgio Sbeghen; roteiro e assistência de direção de Geraldo Campos; pesquisa de Gabe Fortunato e Geraldo Campos; direção de fotografia de Adriano Lourijola e Denilson Nakajima; imagens de drone e operação de câmera de Orlando Junior; som direto das entrevistas de Rodrigo Campos; som direto das músicas e mixagem de Felipe Mafra; trilha e músicas de Rui Ponciano; e fotografia still de Guilherme Silva e Warley Kenji.
- Rui no Pico do Urubu / Foto: Guilherme Silva
- Em Paraty, no Rio, uma das cidades onde o Rui morou / Foto: Warley Kenji

















