
O emprego da inteligência artificial generativa nas empresas brasileiras atingiu um ponto importante de reflexão, já que a automação deixou de se restringir a tarefas operacionais e repetitivas e passou a impactar diretamente funções analíticas e criativas de médio escalão. O levantamento ‘Inteligência Artificial e Mercado de Trabalho’, realizado pela FGV IBRE, revela que aproximadamente 30 milhões de trabalhadores no Brasil, o equivalente a quase 30% da força de trabalho no país, já estão em posições expostas à tecnologia.
“Hoje, a obsolescência não está mais ligada apenas ao tempo, mas à capacidade de adaptação. Conhecimentos técnicos continuam importantes, mas têm um ciclo de vida muito mais curto. Isso exige uma postura ativa do profissional em relação ao próprio desenvolvimento. Aprender continuamente deixou de ser diferencial, tornando-se uma condição para permanência no mercado”, afirma Andréa Rua, coordenadora de Psicologia e Recursos Humanos da UniCesumar de Curitiba.
Nesse cenário, mais do que o risco de deslocamento de postos tradicionais, surge uma nova linha de frente corporativa: a obsolescência técnica. O diferencial humano não é mais saber operar uma ferramenta, mas ter a capacidade de exercer a curadoria estratégica e ética dos resultados. Setores como tecnologia, finanças, varejo e saúde já registram a reconfiguração de papéis em suas estruturas, com a exigência de que profissionais atuem menos como executores e mais como validadores.
O avanço da IA sobre as capacidades cognitivas tem gerado ansiedade no mercado corporativo, uma vez que a tecnologia já entrega análises complexas e geração de conteúdo em segundos. “A IA não substitui o contexto. O que muda é o papel do colaborador que deixa de ser apenas quem produz a primeira versão de um trabalho e passa a atuar como alguém que interpreta, questiona e direciona. A criatividade, inclusive, torna-se mais estratégica e voltada para a resolução de problemas complexos”, analisa a docente.
O fim do “operador de sistemas” e a ascensão da curadoria ética
Saber criar comandos textuais ou dominar o funcionamento técnico de plataformas de IA já não garante vantagem competitiva. A permanência em funções de médio e alto escalão exigirá competências comportamentais robustas, como pensamento crítico, inteligência emocional e a capacidade de lidar com ambiguidades corporativas. “O domínio técnico é importante, mas não é suficiente. O grande diferencial está na forma como o profissional utiliza essas ferramentas. Saber fazer boas perguntas e ter senso crítico para transformar dados em decisões é o que realmente agrega valor”, pontua Rua.
A especialista da UniCesumar complementa que esse papel ativo é também uma barreira de segurança para as companhias. “A curadoria estratégica e ética significa não aceitar a resposta da IA de forma passiva. É exercer um olhar crítico, validar informações, considerar vieses e os efeitos que determinadas decisões podem ter sobre as pessoas, garantindo que o uso da tecnologia esteja alinhado aos princípios organizacionais”.

















