
Por Maria Salas
Há festas que passam. Outras ficam. E existem aquelas raras que atravessam décadas, permanecem vivas na lembrança e retornam quando o tempo parece finalmente pronto para recebê-las outra vez. É assim que o Projeto N – Especial de Natal, denominado Secret Door, volta a Mogi das Cruzes, após 15 anos, não apenas como um evento, mas como um reencontro coletivo com uma época, um sentimento e uma forma diferente de viver a música e a noite. A idealizadora do Projeto N, Fer Alves, que mora em Melbourne, cidade localizada no estado americano da Flórida, retorna à cidade trazendo de volta uma das festas mais emblemáticas da cena eletrônica local. Mais do que um evento, o Projeto N – Especial de Natal ressurge como um reencontro com memórias, sensações e com um público que ajudou a construir essa história nos anos 90. Em clima de remember, a edição especial promete atravessar a madrugada do dia 24 para o dia 25 com música, estética, mistério e emoção, a partir da 1h6, no Salão Social do Clube Naútico Mogiano, no Mogilar. Nesta entrevista, ela fala sobre o retorno à cidade, a decisão de retomar o projeto já na chegada e o significado dessa noite que promete ir muito além da pista. O evento, segundo Fer Alves, foi organizada em collab especial com o apresentador Leandro Sérgio, do programa Cidade Vida. Veja a entrevista:
Vanguarda Alto Tietê: Depois de 15 anos, como tem sido voltar a Mogi das Cruzes?
Fer Alves: Voltar a Mogi das Cruzes depois de 15 anos tem sido profundamente emocionante. A cidade mudou, claro, mas a essência continua ali. Reencontrar pessoas que fizeram parte da minha história, que viveram aquela cena comigo, é como abrir um álbum de memórias vivo. O público cresceu, amadureceu, mas ainda carrega aquela chama no olhar. O que me motivou a voltar justamente com a retomada do Projeto N – Especial de Natal foi esse chamado interno: senti que era o momento certo de abrir novamente essa porta simbólica, a Secret Door, e resgatar uma energia que nunca se perdeu, apenas ficou adormecida.
Vanguarda: Por que decidir fazer uma festa tão simbólica logo no retorno à cidade?
Fer Alves: Realmente não é comum, mas o Projeto N nunca foi comum. Voltar e já promover uma festa tão simbólica foi uma decisão muito intuitiva e emocional. Não fazia sentido voltar de forma tímida. O Projeto N sempre foi sobre intensidade, entrega e experiência. Marcar esse retorno com uma festa é dizer: eu voltei inteira, com tudo o que vivi, aprendi e transformei ao longo desses anos. E o Natal traz exatamente esse simbolismo de renascimento, encontro e celebração.
Vanguarda: O que o público pode esperar da programação da noite?
Fer Alves: A festa começa à 1h06, logo após a ceia de Natal, um horário simbólico, de transição, e será no Salão Social do Clube Náutico Mogiano. O evento segue até o amanhecer, como sempre foi. Teremos café da manhã, porque o Projeto N nunca terminava simplesmente; ele se dissolvia aos poucos, com conversas, olhares cansados e corações cheios.
Vanguarda: Haverá surpresas?
Fer Alves: Sim, com certeza. Algumas coisas permanecem guardadas a sete chaves. Elementos marcantes, performances, experiências sensoriais… talvez a gaiola, talvez não. O Projeto N sempre trabalhou com o mistério. Parte da magia é não saber tudo antes de entrar.
Vanguarda: Qual é a sua maior expectativa para essa edição especial?
Fer Alves: Espero uma noite de reencontro — consigo mesma, com o outro e com uma época que foi transformadora. Quero despertar nostalgia em quem viveu aquela fase e curiosidade encantada em quem vai conhecer o Projeto N pela primeira vez. Que todos saiam de lá com a sensação de ter atravessado uma porta invisível e vivido algo que não se explica, apenas se sente.
Vanguarda: O dress code e a restrição ao uso de celulares para esta festa de Natal chamam a atenção. Qual é a proposta?
Fer Alves:Não são imposições, são convites. Um convite para a presença, para a estética, para viver o agora. Queremos resgatar a magia de olhar nos olhos, de dançar sem a mediação de uma tela. Criar um ambiente onde as pessoas se sintam parte de algo especial, quase secreto, onde o tempo desacelera e a experiência ganha profundidade.
Vanguarda Alto Tietê: Vamos faalr sobre história? Como nasceu o Projeto N e o que ele representou nos anos 90?
Fer Alves: O Projeto N surgiu nos anos 90 e marcou alguns dos períodos mais intensos da minha vida. Ele representava muito mais do que uma festa: era um movimento, um espaço de liberdade criativa e sensorial para a cena eletrônica em Mogi, numa época em que esse som ainda era extremamente alternativo. As festas eram pensadas nos mínimos detalhes — da música à cenografia, da luz ao comportamento do público. Cada edição tinha um conceito, quase como um ritual coletivo.
Vanguarda: Como você define o público daquela época e o que espera encontrar agora?
Fer Alves: Naquela época, o público era curioso, aberto e disposto a viver algo novo. Hoje, a expectativa é receber pessoas que viveram tudo aquilo intensamente e também uma nova geração que busca experiências verdadeiras, não apenas festas. Antes, o diferencial era a atmosfera: respeito, conexão e entrega à música. Isso permanece. A ideia continua sendo proporcionar uma experiência imersiva, elegante, sensorial e memorável.
Vanguarda: Apostar na música eletrônica nos anos 90 foi um ato pioneiro. Como você vê isso hoje?
Fer Alves: Foi um ato de coragem e muita intuição. Poucos conheciam, poucos entendiam. Mas eu sentia que aquele som tinha alma e futuro. Era libertador, hipnótico, transformador. Houve resistência, mas também houve encantamento. E foi esse encantamento que construiu uma cena e deixou marcas que ainda ecoam.
Vanguarda: Como funciona a curadoria musical do Projeto N?
Fer Alves: A escolha dos DJs sempre foi feita com muito critério e sensibilidade. Nunca foi sobre nomes famosos, mas sobre identidade sonora e narrativa musical. Na edição Remember, o público pode esperar essa mesma essência: uma curadoria que respeita o passado, mas dialoga com o presente.














