
Por Sabrina Pacca
A primeira grande interdição da Rodovia Mogi-Bertioga em período de chuvas intensas, já sob gestão da Concessionária Novo Litoral (CNL), expôs um problema que vai além das condições climáticas: a falta de transparência na comunicação com os usuários e com a imprensa.
No domingo (4), a concessionária fechou o trecho de serra da Rodovia Mogi-Bertioga (SP-098), entre os quilômetros 77 e 98, alegando riscos à segurança devido ao alto volume de chuvas acumuladas, que teria chegado a aproximadamente 200 milímetros em 72 horas. A via foi liberada por volta das 17h50 do mesmo dia.
Desde o início da interdição, ainda pela manhã, até a liberação total da pista no fim da tarde, a CNL divulgou apenas três informações oficiais ao longo de todo o dia, número considerado insuficiente diante da gravidade da situação e do impacto direto sobre milhares de motoristas.
A condução do episódio gerou questionamentos quando a concessionária passou a negar reiteradamente qualquer ocorrência de queda de barreira, mesmo após perguntas diretas da Vanguarda Alto Tietê. Em sentido oposto, empresas de transporte rodoviário informaram passageiros de que a mudança de trajeto — com desvio pelo Sistema Anchieta/Imigrantes — teria ocorrido justamente por queda de barreira na Mogi-Bertioga.
A contradição foi reforçada por uma informação pública feita pelo próprio André Belarmino, capitão da Polícia Rodoviária, que utilizou suas redes sociais para informar que a interdição ocorreu por risco iminente de queda de barreira. A manifestação do oficial diverge da versão sustentada pela concessionária, que insistiu em não reconhecer a existência desse tipo de risco específico no trecho interditado.
Diante das informações conflitantes, a reportagem questionou se houve ou não risco concreto de queda de barreira, se a liberação ocorreu apenas porque o volume de chuva diminuiu, se foram realizadas vistorias técnicas específicas ou obras emergenciais, como contenção de encostas, e se houve remoção de árvores ou outros riscos identificados durante a interdição. As respostas da concessionária foram genéricas. A CNL limitou-se a afirmar que a rodovia foi interditada por segurança e que, quando o volume de chuva diminuiu e as condições foram consideradas favoráveis, a pista foi liberada, sem detalhar critérios técnicos ou procedimentos adotados.
Outro ponto que chamou a atenção foi a ausência de resposta sobre a possibilidade de implantação de câmeras com transmissão ao vivo ao longo da rodovia. Antes da concessão, o DER disponibilizava imagens online que eram amplamente utilizadas pelos motoristas para avaliar as condições da serra em dias críticos. Questionada se pretende oferecer serviço semelhante, a CNL não se manifestou, apesar de já ter iniciado a cobrança de pedágio.
A insatisfação dos usuários ficou evidente nas redes sociais da própria concessionária. Internautas cobraram uma posição mais realista sobre a liberação da via, pediram previsibilidade em caso de continuidade das chuvas e criticaram a falta de informações atualizadas. Houve reclamações sobre a demora nas comunicações, pedidos para a volta das câmeras ao vivo e críticas diretas ao fato de a concessionária arrecadar com pedágio sem, na percepção dos usuários, oferecer um serviço proporcional.
A interdição afetou trabalhadores, turistas, empresas de transporte e a ligação entre o Alto Tietê e o Litoral. Em um cenário como esse, a comunicação clara, detalhada e tempestiva é parte essencial da segurança viária. Ao optar por respostas vagas, divulgar poucas atualizações ao longo de um dia inteiro, não esclarecer os critérios técnicos que levaram à interdição e à liberação da pista e manter versões divergentes de autoridades que atuam no local, a CNL deixou lacunas importantes e perdeu a chance de construir confiança justamente em seu primeiro grande teste sob a nova concessão.















