
Por Sabrina Pacca
Pelo menos 10 ex-candidatos a vereador nas eleições de 2024, de partidos como PT e Solidariedade, estão com bens bloqueados pela Justiça Eleitoral em Mogi das Cruzes após a desaprovação de suas prestações de contas de campanha. Os casos têm em comum o fato de que os documentos teriam sido elaborados pelo suposto contador Marcelino Valverde, tio do ex-candidato a prefeito Rodrigo Valverde, cujo escritório prestou esse tipo de serviço para o Partido dos Trabalhadores e coligados. Em alguns casos, segundo relatos, mesmo ex-candidatos sem patrimônio estão tendo salários e aposentadorias bloqueados para garantir o ressarcimento de valores ao erário.
A decisão judicial que mantém os bloqueios aponta uso irregular de recursos públicos e ausência de comprovação adequada dos gastos, o que levou à condenação para devolução dos valores. Uma das candidatas afetadas, Eliana Salles Ferreira (PT), afirma que não foi devidamente orientada durante o processo. “A gente só ficou sabendo quando já estava tudo bloqueado, porque não recorremos no prazo por falta de aviso”, disse. Ela relata ainda dificuldades financeiras após a medida. “Meu pagamento está sendo retido. Todo mês o dinheiro que cai na conta é bloqueado. Não tenho dinheiro nem para comprar comida”, afirmou Eliana, que é aposentada por invalidez.
Outra ex-candidata, Fabiana Bittencourt, do Solidariedade, também afirma ter sido surpreendida. “Eu prestei todas as minhas contas certinho e não sei por que deu esse problema. Para mim estava tudo regular, porque o contador Marcelino disse que estava tudo certo”, declarou. Segundo ela, não houve comunicação direta sobre possíveis inconsistências. “Só fui descobrir quando meu Pix não passou no mercado”, relatou, lembrando que procurou o presidente do Solidariedade, Davi Martins, para cobrar explicações e que ele teria dito que a culpa seria do contador.
Martins confirmou à Vanguarda que foi informado sobre inconsistências pelo advogado Luiz David, mas afirmou que a responsabilidade foi atribuída ao contador da coligação. “Foi passado para o contador, que era o Marcelino, e parece que ele não fez o que deveria ser feito”, disse. Ele acrescentou que segue à frente do partido e que os candidatos que o procuram estão sendo orientados a buscar Rodrigo Valverde, que teria assumido o compromisso com as prestações de contas. “Os que não conseguirem êxito, estou à disposição com nosso departamento jurídico para ajudá-los no que for necessário”, completou.
Ouvimos também o vereador Iduigues Martins (PT), que afirmou ter optado por contratar um contador próprio nas eleições mais recentes justamente por experiências anteriores. Segundo ele, em 2020 enfrentou problemas em sua prestação de contas ao deixar o processo sob responsabilidade do contador do partido — que, coincidentemente, também era Marcelino Valverde.
Por sua vez, o advogado Luiz David afirmou que a desaprovação das contas ocorreu após a Justiça Eleitoral identificar irregularidades e intimar os responsáveis para correção, sem que houvesse retorno adequado. Segundo ele, as orientações foram repassadas aos dirigentes partidários — incluindo os presidentes do PT à época, Alexandre Gerolamo de Almeida e Jackson Ribeiro — e cabia aos partidos comunicar os candidatos e ao contador realizar os ajustes técnicos. Como as falhas não foram sanadas, diversos candidatos, em sua maioria do PT e do Solidariedade, foram condenados a devolver valores por falta de comprovação do uso de recursos públicos. Luiz David destacou que atuou apenas na assessoria jurídica e que a elaboração das prestações de contas era responsabilidade da contabilidade, afirmando ainda que não tinha contato direto com todos os candidatos e que as comunicações foram feitas por meio de um grupo com representantes partidários e o contador.
A reportagem da Vanguarda procurou o ex-candidato a prefeito de Mogi das Cruzes, Rodrigo Valverde, citado por candidatos e demais envolvidos. O nome de Rodrigo também aparece no contexto porque suas próprias contas de campanha foram rejeitadas pela Justiça Eleitoral.
Em resposta, Valverde afirmou: “Eu não tenho nenhuma responsabilidade por nenhuma conta de candidato. É impossível ser candidato a prefeito e atuar como advogado ou contador de qualquer candidato a vereador ou candidata a vereadora. Eu não consigo entender o porquê que a imprensa vincula meu nome a esses casos e inclusive eu tive problema nas minhas contas que foi um absurdo do Judiciário que eu já estou recorrendo para o Tribunal Regional Eleitoral. Eu não fui o advogado do caso e não fui o contador do caso. Porém, como o Luiz David se negou a continuar atendendo os candidatos a vereadores após acabar a campanha, eu me coloquei voluntariamente à disposição dos candidatos para tentar solucionar a situação. Eu sei que existe um mecanismo na cidade de tentar atingir a minha imagem. Espero que nenhuma informação seja deturpada”.
A Vanguarda procurou ouvir, também, Marcelino Valverde, citado pelos envolvidos como sendo o contador responsável pelas contas de campanha desaprovadas, mas até o fechamento dessa reportagem ele não respondeu. Inclusive o próprio Conselho Regional de Contabilidade de São Paulo foi procurado pela reportagem e, por telefone, confirmou que não existe nenhum registro de Marcelino Valverde junto ao órgão. A Vanguarda obteve a informação que essa falta do registro no CRC, aliás, foi motivo de brigas internas no PT e que um outro contador de Itaquaquecetuba teria assinado as prestações de contas feitas por Marcelino.
Tentamos contato com o ex-presidente do PT na ocasião das eleições, Alexandre Gerolamo, mas não houve retorno. No entanto, o atual presidente do partido, Jackson Ribeiro, disse que sua gestão teve início em setembro de 2025 e que, portanto, durante as eleições municipais de 2024 ele era “apenas membro da Executiva e não dispunha das prerrogativas da presidência”. “As demandas que me foram encaminhadas após a assunção ao cargo referem‑se a casos que não puderam ser retificados no sistema interno de prestação de contas da Justiça Eleitoral, e as notificações legais por parte do advogado já haviam sido emitidas”.














