
Por Sabrina Pacca
Antes de mais nada, deixo claro que não sou e nunca fui uma crítica de cinema e que o texto, a seguir, nasce de um desejo grande de expor meus sentimentos e opiniões – coisa que jornalista, normalmente, não faz – diante de uma obra artística fantástica.
Dito isso, até para me livrar das críticas dos críticos (rs), fui assistir ao longa-metragem “Chang: A Retomada” nesta sexta-feira (07), na Câmara Municipal de Mogi das Cruzes, e saí profundamente emocionada. A sessão lotou o Auditório Tufi Elias Andere — e antes mesmo de começar já dava para sentir o clima especial da noite. O público foi recebido na entrada com o tradicional e mais querido carrinho de pipoca do Largo do Carmo, acompanhado de outros quitutes que transformaram o evento em uma verdadeira celebração cultural, simples e acolhedora, do jeito mogiano de ser.
O longa é muito mais do que um documentário: é um reencontro com a nossa própria história, um gesto de reparação e pertencimento. Realizado pela Trindade Cine, com apoio da Itapeti Filmes, dirigido brilhantemente por Diego Freire e idealizado pelo artista mogiano Fabiano Spike, o filme mergulha de forma poética e sensível na trajetória de Chang Dai-Chien, o “Picasso Chinês” que escolheu Taiaçupeba como lar e refúgio criativo entre 1953 e 1971.
Durante a exibição, senti um misto de orgulho e tristeza. Orgulho por ver a história de Mogi das Cruzes sendo contada com tamanha beleza, sensibilidade e rigor artístico. Tristeza por constatar que muito do que Chang construiu aqui — especialmente o Jardim das Oito Virtudes — foi apagado pela ignorância e pela falta de preservação, sobretudo após a instalação da barragem. É impossível não imaginar o que Taiaçupeba poderia representar hoje para o mundo, se essa memória tivesse sido valorizada desde o início.
A pesquisa para o doc é admirável — detalhada, profunda, feita com amor à arte e à cidade. E a fotografia de Jonny Ueda é simplesmente deslumbrante. Sua captação de imagens — especialmente as aéreas com drones — dá ao longa uma dimensão quase espiritual. Cada plano é uma pintura viva, e as imagens do distrito de Taiaçupeba, com sua névoa, seu verde e suas águas, parecem dialogar com o próprio espírito de Chang. Ueda transforma a paisagem em poesia visual.
Não posso deixar de mencionar que na primeira exibição, realizada em 30 de setembro, na praça de Taiaçupeba, os moradores que conheceram Chang assistiram ao filme chorando — de saudade e de lamento. Foi um momento simbólico, um reencontro entre o passado e o presente, entre o artista e o território que o acolheu.
A sessão na Câmara contou ainda com a presença de representantes da cultura chinesa no Brasil, reforçando o caráter simbólico e diplomático do evento: Zhao Yongping, presidente da Associação de Intercâmbio Cultural Brasil–Pequim, e Zhou Hai, secretário-geral da Câmara de Comércio Brasil–Sichuan — região natal de Chang, o lendário artista que inspirou o filme. A presença deles evidenciou a importância do resgate dessa história não apenas para Mogi, mas para o intercâmbio cultural entre Brasil e China.
Saí da sessão com uma certeza: “Chang: A Retomada” é um filme necessário e urgente. Um alerta aos gestores públicos sobre o potencial que Mogi das Cruzes tem — e tantas vezes ignora. Se houvesse políticas consistentes de preservação e incentivo cultural, Taiaçupeba poderia se tornar um ponto turístico internacional, referência em arte e memória.

















