
Por Maria Salas
Desde o dia 19 de fevereiro, as seculares Igrejas das Ordens Primeira e Terceira do Carmo, localizadas no Centro de Mogi das Cruzes, estão de portas fechadas para os fiéis e o público em geral, o que chamou a atenção de quem passa pelo local e acendeu o sinal de alerta da Vanguarda para uma reportagem especial.
Em contato direto com o frei Jerry de Souza Fonseca, frade da Ordem do Carmo, e que está como pároco das igrejas desde fevereiro de 2023, a reportagem agendou a entrevista, prontamente aceita pelo frei, pessoa simpática e de fala suave, que, ao lado da advogada Regiane Andrade Munhoz Marques, que integra o corpo jurídico da igreja, explicou em detalhes o que de fato está ocorrendo.
Segundo o religioso, a decisão foi tomada de forma preventiva, após serem identificadas infestações de cupins, especialmente em estruturas de madeira como os forros, a tribuna do coro e o altar. Além disso, uma série de acidentes recentes envolvendo templos históricos no Brasil (leia abaixo) reforçaram ainda mais a suspenção das celebrações nas Igrejas do Carmo.
Ele afirma que o fechamento das igrejas nunca esteve em seus planos – especialmente para alguém que, ao assumir como pároco teve como uma das primeiras ações justamente reabrir as igrejas da Ordem Primeira e da Ordem Terceira do Carmo (dos leigos), que, na época, estavam fechadas e com as atividades suspensas em razão da pandemia.
“Há de se considerar esse rico patrimônio histórico, religioso, artístico, museológico e cultural do Complexo Histórico do Carmo para a cidade de Mogi das Cruzes e região. E foi o que eu fiz e para a valorização dessas igrejas históricas! Aos poucos, as missas na Ordem Primeira foram retomadas e recebendo de volta as programações litúrgicas. E a Igreja da Ordem Terceira, que já tinha uma programação litúrgica semanal, seguiu com seu trabalho pastoral organizado pelos leigos e leigas da Ordem Terceira do Carmo”, relembra o frei Jerry.
Ou seja, depois de terem sido reabertas, e assim terem permanecido até então, elas fecharam as portas de novo, para garantir a segurança dos paroquianos, conforme ressalta o frei: “No fim do ano passado, eu comecei a observar – e alguns frequentadores das missas da noite, que eram realizadas de terça a domingo, na Ordem Primeira, e às segundas, às 7h, na Ordem Terceira – pó, resíduos de madeira caindo do forro, em pontos isolados, o que começou a chamar a atenção e causar preocupação. Embora a olho nu o estrago não seja tão evidente, os danos na estrutura exigem atenção e cuidados urgentes. Eu não posso ser irresponsável e deixar de tomar uma medida”.
A Igreja da Ordem Terceira comporta de 120 a 150 pessoas sentadas, e a da Ordem Primeira, até 200. No momento, as celebrações estão sendo feitas na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, também interligada ao complexo de igrejas, localizada na Rua Otto Unger, 206.
Assim que decidido, eles acionaram a Província Carmelitana Fluminense, que é entidade jurídica e mantenedora das igrejas do Carmo de Mogi, e o jurídico local, e comunicaram os paroquianos e visitantes, nas missas, além da Diocese de Mogi das Cruzes.
O fechamento foi respaldado, ainda, por todos os órgãos de preservação do patrimônio: o federal IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o estadual CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), e o municipal COMPHAP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico de Mogi das Cruzes).
O frei Jerry conta que, duas semanas após o fechamento, representantes do IPHAN estiveram no local para vistoriar o imóvel. “Veio um grupo formado por 14 pessoas, nós acompanhamos, assim como também os membros da mesa diretora da Ordem Terceira (ela é administrada pelos leigos). E em março, o IPHAN nos enviou a Nota Técnica com o resultado dessa avaliação que eles fizeram. O documento recomendava a suspensão das atividades como forma de segurança e que providenciássemos um laudo feito por uma empresa especializada em prédios tombados, que apurasse a estrutura da igreja e suas danificações. É importante frisar que não existe o embargo da igreja oficial.”, diz a advogada.
O laudo está em fase de conclusão e deve ser entregue até o fim de julho. O custo desse diagnóstico é de R$ 50 mil. Os valores das obras ainda não foram estimados.
Enquanto aguardam o andamento dos processos técnicos, o que se sabe, de maneira informal – após questionamento dos representantes da igreja que desejavam abri-las nesses dias da festa em louvor à Nossa Senhor do Carmo (cuja data se celebra em 16 de julho) -, é que eles não podem abrir as portas das igrejas, pois o estado do forro oferece risco aos fiéis.
No momento, as celebrações que antes ocorriam na Igreja da Ordem Primeira foram transferidas para a Paróquia Nossa Senhora do Carmo. As portas e janelas das igrejas continuam abertas durante o dia, conforme recomendação do IPHAN, para garantir a ventilação interna e evitar agravamento dos danos. “Temos de dar os passos acertados e seguir todos os trâmites burocráticos. Estamos conscientes que tomamos a decisão certa, antes que algo mais grave ocorra. E, em menos de cinco meses, já conseguimos avanços bem significativos para poder reabrir as igrejas aptas a receberem os paroquianos e visitantes”, comenta o frei.
Acidentes em outras igrejas
Durante a entrevista, o frei Jerry relembrou os acidentes que tiveram em igrejas históricas de outras cidades e reforçou a relevância das Igrejas do Carmo para Mogi. Ele destacou não apenas o valor religioso dos templos, mas também o papel que eles desempenham na preservação da memória e identidade da cidade de Mogi das Cruzes: “As igrejas dizem da história da cidade. Os carmelitas chegaram aqui na primeira metade do século 17. Nós estamos próximos de completar 400 anos de presença da Ordem do Carmo e dos frades em Mogi”. Ele frisou, ainda, que as obras sacras presentes no interior dos templos também carregam esse valor histórico: “As pinturas antigas retratam, quase todas elas, a antiga Mogi, do período colonial.”.
Só no mês de agosto do ano passado, dois episódios graves chamaram a atenção do frei Jerry: no dia 30, um desabamento no Santuário de Nossa Senhora da Conceição, no Morro da Conceição, em Recife (PE), durante a distribuição de cestas básicas, deixou duas pessoas mortas e 28 feridas. Poucos dias antes, no dia 19, o telhado da Igreja da Ordem Primeira de Nossa Senhora do Carmo, no Centro de Angra dos Reis (RJ), desabou por completo. Embora ninguém tenha se ferido, o incidente evidenciou a fragilidade estrutural de construções centenárias, mesmo tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Mais recentemente, em fevereiro deste ano, um grave acidente na Igreja de São Francisco de Assis – a famosa “Igreja de Ouro”, no Pelourinho, em Salvador (BA) – resultou na morte da turista paulista Giulia Panchoni Righetto, de 26 anos, além de ferimentos em outras cinco pessoas. Parte do forro do templo, também histórico, desabou sobre os visitantes.
Festa do Carmo
A convite do frei e da advogada, a reportagem da Vanguarda entrou na igreja da Ordem Primeira do Carmo.
Fotos: Maria Salas
- O frei Jerry de Souza Fonseca, frade da Ordem do Carmo, e pároco das igrejas do Carmo desde fevereiro de 2023
- A advogada Regiane Andrade Munhoz Marques

























