terça, 27 de janeiro de 2026 Anuncie
Vanguarda Alto Tietê
Foto: Priscila Cardoso

“Quando ouvi Chico, dancei”

Por Bianca Torelli

Chico César celebrou, em Mogi das Cruzes, no sábado (13) os 30 anos da turnê Aos Vivos. Fico pensando se ele tem a compreensão total e real do que são essas canções, se imagina o quanto elas reverberam nas almas daqueles adolescentes apaixonados por MPB ali nos anos 90. Muitos ainda vivos, meia idade, outros curtindo seu som em outro endereço astral.

Show aos vivos, aos mortos, aos emudecidos pela realidade sombria, aos que não foram ver, mas sentem o impacto de sua voz. Voz de Chico César, mas poderia ser de tantos e tantas. Voz de mulher com coturno de anjo noturno no pescoço, mas não no coração. Eu sou mulher, eu sei. Voz de homem negro cantando e dançando sobre roças mortas lado a lado ao indígena atual, ancestral, atemporal ameaçado.

Aos vivos, a voz. Aos mortos, a memória, a homenagem, a luta ininterrupta. Alma não tem cor. Mas tem coragem. E a voz mais uma vez fazendo a coragem voar. Bravura alada de Catolé do Rocha, Paraíba feminina; bravura de quem carrega no peito as dualidades sem filtro: descrença e fé, rejeição e querer. Destemido olho que vê, existe e resiste.

Assisti Chico César ao vivo, aos vivos. Estava lá, viva como sempre, mas como nunca. O olho brilhou e eu entendi: quando tudo for ausência, esperar é ato de sabedoria. Esperar na estratégia. Agir no tempo certo é necessário. Compor e cantar é ação, arte é tempo texturizado, esculpido e colorido pela história. E Chico vem pincelando suas ideias, seu verbo. A tinta pinta asfalto e céu e, suaves e implacáveis como a natureza, aquarelas potentes nos tocam e nos derretem feito neve no vulcão.

Uma mistura artística de consciência política, humanidade, fé e talento que deixou uma plateia toda em estado de poesia. Africanidade brasileira, brasilidade africana, musicalidade autêntica, neologismos, metáforas, domínio da língua, das palavras e da retórica, nenhum censor decifraria, jamais entenderiam… Chico sagaz, contador de causos e anedotas incríveis. Ele, sua voz e o violão tomaram conta do palco como se fossem uma banda completa a criar a trilha sonora de um livro de belíssimas crônicas de humor refinado.

Já me despedindo desse pequeno trecho de história, essa modesta percepção escrita sobre a magnitude de Chico César e sua arte, lembro Miriam Makeba, artista e ativista anti-apartheid sul-africana. Sua música misturava ritmos tradicionais africanos, jazz e soul. Cantava em inglês e em seu dialeto espetacular com cliques e estalos fonéticos. Exilada por mais de 30 anos jamais desistiu de seu propósito, de sua luta, de seu resgate diário da humanidade e dignidade do povo negro. Levou a batalha política, de justiça social e humanitária aos palcos do planeta. Foi a primeira mulher a ganhar um Grammy, em 1966. Discursou na ONU. Foi luz, foi abraço, foi representatividade. Seu apelido? Mama África.

Chico cidadão do mundo, escancarando a maldade da gente boa, personificou brilhantemente Mama África em toda mulher, ativista do amor e da dedicação, da maternidade real, da vivência digna num cotidiano exaustivo; mãe solo, trabalhadora, que se vira, sustenta e enche de carinho e cuidado seus filhos sem pai.

Arte, coragem, afeto, inteligência política, consciência humana, posicionamento, voz de faca cortante que paira e provoca identificação. Artista de atitude inundando de força nossos olhos de contemplação naquela noite de sábado. Acabou o show, mas a emoção fica eternizada. Agradecida, esperançosa por dias melhores e encantada, voltei pra casa sorrindo de dentro pra fora. E já que a palavra mágica da noite foi amor, segui cantarolando essa pedrada, relembrando o poderoso coro da plateia acompanhando Chico em uníssono: “a bola incendiária está no ar, fogo nos fascistas, fogo Jah”…

 

Publicado em: 23 de dezembro de 2025

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