
Por Maria Salas
O sonho de uma vida melhor em São Paulo terminou em decepção e adoecimento para dezenas de trabalhadores pernambucanos contratados para atuar no recém-inaugurado Restaurante da Fazenda, em Mogi das Cruzes, e interditado no sábado (4). Vindos do Recife, muitos deixaram para trás suas famílias e economias – alguns chegaram a vender seus bens – na esperança de um emprego estável, salário digno e carteira assinada. Em vez disso, encontraram jornadas exaustivas, condições insalubres, promessas não cumpridas e tratamento desumano.
Os trabalhadores relatam ter sido recrutados por meio de anúncios em redes sociais, que prometiam salário de até R$ 2.500,00, além de bonificação, moradia gratuita e registro em carteira. A realidade, no entanto, foi outra, conforme relatam os funcionários, que desde a noite de sábado (4) foram acolhidos pela Prefeitura de Mogi das Cruzes, no Pró-Hiper, no bairro Mogilar, onde recebem acomodação, refeições e atendimento médico. Agora, o Ministério Público do Trabalho (MPT) confirmou que abriu investigação para apurar as denúncias.
Longe de casa e da família, eles afirmam ter vivido uma verdadeira saga desde a viagem até as condições encontradas na cidade. “A viagem durou três dias e três noites, com alimentação custeada do próprio bolso, assim como os banhos. Disseram que a passagem seria R$ 800,00 e, depois, já na Bahia, aumentaram para R$ 850,00, porque disseram que o ônibus tinha ar-condicionado e Wi-Fi. Quando chegamos, descobrimos que o salário seria o mínimo e o resto seria pago ‘por fora’”, contou R. R. J. M., de 31 anos, que atuava na área de serviços gerais, na limpeza do restaurante. Além da passagem, foi cobrada dos funcionários a farda de trabalho – inclusive o sapato – no valor de R$ 300,00, contrariando as promessas iniciais.
Ele disse ainda que trabalhava no período da tarde, com hora certa para entrar, mas sem hora para sair. “Iniciava o trabalho por volta das 16h e seguia até 2h ou 3h da madrugada, sem controle real de ponto e sob pressão constante. Eu tentava bater o ponto à meia-noite e não deixavam. Só podíamos bater até aquele horário. Continuei trabalhando até 3h da manhã”, disse. Questionado sobre o que espera daqui para frente, ele afirma: “Voltar eu não posso voltar, porque tudo que eu tinha lá eu dei fim. Então, pra ficar na responsabilidade da minha mãe, eu não pretendo. Quero ficar aqui, arrumar um trabalho e continuar a minha vida. São meus objetivos aqui em São Paulo. Se Deus quiser, vai dar tudo certo”.
Além das condições precárias de trabalho, os funcionários relatam que precisavam ir a pé até o restaurante, percorrendo diariamente cerca de 1,8 quilômetro entre o alojamento – localizado no bairro da Ponte Grande – e o restaurante, na Rodovia Pedro Eroles, nº 1.461, no Jardim Aracy. Eles eram obrigados a sair já uniformizados.
Os relatos indicam que tanto funcionários quanto clientes teriam passado mal devido à comida reaproveitada e ao uso de água suja, retirada diretamente da torneira, na preparação dos alimentos e bebidas. “O suco era feito com água da torneira, a mesma usada pra lavar prato. A gente comia as sobras do dia anterior. Muita gente passou mal, teve diarreia, ânsia, dor de barriga”, relatou outro funcionário que atuava na copa. Segundo ele, os gerentes e subgerentes comiam do buffet principal, enquanto os demais funcionários recebiam marmitas com sobras. No setor da faxina, apenas duas pessoas eram responsáveis pela limpeza de um espaço com capacidade para atender 1.245 clientes sentados, além dos banheiros e corredores. “Não tinha como dar conta. E ainda diziam que a sujeira era culpa nossa. Era impossível dar conta de um restaurante grande e fazer uma limpeza impecável”, contou outro trabalhador.
Os funcionários também afirmam que não receberam qualquer tipo de treinamento antes de iniciarem as atividades. Segundo os relatos, muitos foram contratados mesmo sem experiência prévia, enquanto outros, ainda que acostumados ao serviço, se sentiram despreparados diante das condições encontradas. Eles destacam que nem mesmo equipamentos básicos de proteção foram disponibilizados. “A gente tinha que limpar os banheiros sem luva, sem máscara, sem produto adequado. Fazíamos tudo com as próprias mãos”, lamentou.
Ao chegar a Mogi, os trabalhadores foram levados a um alojamento que já estava ocupado por pessoas que haviam atuado na construção do estabelecimento — também vindas de Pernambuco. Cerca de 70 pessoas residiam nesse alojamento masculino. O das mulheres ficava mais perto do restaurante. “A gente que tinha que limpar, porque não mandavam ninguém pra isso. Depois começou a lotar e a higiene foi acabando”, contou Deyvson Wanderley, de 38 anos, que, no restaurante, limpava o salão e os banheiros. “A minha esposa quase veio, mas, graças a Deus, não conseguiu vender a casa, porque ela ia estar na mesma situação que eu. Ia trazer nosso filho, de 10 anos”, ressaltou.
Diversos trabalhadores relataram sintomas de intoxicação alimentar, como febre, vômitos e desidratação. Mesmo doentes, eram impedidos de procurar atendimento médico, sob ameaça de desconto no salário. “Me disseram que, se eu fosse ao hospital e levasse atestado, iam descontar do meu dinheiro”, contaram.
José Nivaldo Gomes de Oliveira Santos, de 22 anos, natural de Recife, também deixou tudo para trás em busca de uma oportunidade melhor. “Eu vim pra ver se era bom, pra mudar de vida, mas quando cheguei aqui já foi outra coisa”, contou. No Nordeste, ele trabalhava como faxineiro e ajudante, e recebia até mais do que o valor que passou a ganhar em Mogi. Segundo Nivaldo, a promessa era de um salário de R$ 2.500, mas, ao chegar, foi informado que a carteira seria assinada por R$ 1.500 e o restante pago ‘por fora’ — algo que nunca aconteceu. Ele relata ainda que as condições de trabalho eram insalubres, sem luvas, máscaras ou produtos adequados para limpeza. “A gente limpava mesa com papel higiênico, sem proteção nenhuma. Era perigoso até pra contaminar os alimentos”, afirmou. Mesmo diante das dificuldades, muitos colegas permanecem no alojamento, sem saber o que fazer. “Tem gente que não quer ir embora porque vendeu tudo pra vir. E agora, vamos voltar pra onde?”, questionou.
Após a repercussão do caso, os trabalhadores foram acolhidos pela Prefeitura de Mogi das Cruzes, que os abrigou provisoriamente no Pró-Hiper, oferecendo alimentação, assistência médica e suporte social. Alguns decidiram voltar para Pernambuco, enquanto outros preferem ficar na cidade e tentar recomeçar a vida. “A prefeita está tratando a gente como mãe. Só quero esquecer tudo isso e seguir em frente”, disse um dos trabalhadores, emocionado.

Lixo acumulado no alojamento onde os funcionários moravam no bairro da Ponte Grande / Foto: Divulgação














