
Por Sabrina Pacca
A reportagem da Vanguarda conversou com alguns funcionários do restaurante Da Fazenda, interditado neste sábado pela Vigilância Sanitária de Mogi das Cruzes. Muitos trabalhadores e frequentadores foram parar nas UPAs da Cidade por intoxicação alimentar. Os relatos são assustadores de como chegaram até o Município e as condições em que estavam vivendo.
Essa história começa em Recife e Olinda, em Pernambuco. Eles foram trazidos para Mogi com promessas de emprego formal e acabaram vivendo em condições degradantes, com jornadas exaustivas, comida estragada, água imprópria para consumo e ameaças de expulsão. O grupo, que soma mais de 150 pessoas, foi recrutado por meio de um anúncio nas redes sociais que oferecia vagas com carteira assinada, alojamento e refeições no restaurante, com salários entre R$ 2.500 e R$ 3.000.
O cartaz de divulgação, que circulou em grupos de WhatsApp, indicava a saída de Pernambuco rumo a São Paulo no dia 28 de setembro e era assinado por um homem identificado como Ricardo. As funções oferecidas iam de manobrista e garçom a auxiliar de cozinha e serviços gerais, prometendo “alojamento incluso” e “refeições no restaurante”. No entanto, ao chegar a Mogi, os trabalhadores afirmam que encontraram uma realidade completamente diferente.

De acordo com os relatos, o grupo foi levado para trabalhar no Da Fazenda. No local, segundo os depoimentos, eles enfrentavam jornadas de até 18 horas por dia e alimentação feita com sobras do próprio bufê. “A gente pega de oito horas da manhã pra largar de três horas da manhã. É resto de comida do bufê que a gente bota pra comer. É trabalho escravo”, relatou um dos trabalhadores, que pediu para não ser identificado.
A situação do alojamento também foi descrita como precária. Em áudios enviados à reportagem, um dos funcionários relatou que a água usada para beber e cozinhar era amarelada, com gosto e cheiro ruins. “A água é de péssima qualidade, amarela. Ontem eu enchi um balde branco e a água tava amarela. É essa água que a gente bebe, eu e outros funcionários. Estamos todos passando mal, com febre e diarreia. Teve gente botando sangue”, contou outro trabalhador, que fazia a faxina do local.
Alguns funcionários chegaram a procurar atendimento na UPA, mas a maioria tem medo de sair do alojamento por ameaças dos empregadores. “Tem mais de cento e cinquenta pessoas. A maioria tá passando mal, mas tem medo de ir pra UPA porque os caras estão ameaçando. Dizem que, se a gente for, vai pra rua”, disse outro homem.
Segundo os relatos, o grupo é formado por pessoas de Recife e Olinda, levadas em ônibus fretado. Eles afirmam que só descobriram que teriam de pagar pela passagem ao chegarem em Mogi — um custo de R$ 800 que aumentou para R$ 850. “Ninguém falou que tinha que pagar. Quando chegamos, disseram que era oitocentos reais. A gente não tinha dinheiro e ficou sem opção”, contou um deles.
Além disso, os salários prometidos não foram cumpridos. O grupo alega que foi informado de que a carteira seria assinada por R$ 1.500, com mais R$ 1.000 “por fora”, mas o valor adicional nunca foi pago. “Só conversa. Ninguém recebeu. E agora estão ameaçando botar a gente pra fora do alojamento”, disse outro funcionário.
Um dos trabalhadores afirmou que estava tomando medicação após atendimento médico: “Acabei de sair da UPA, eu e uma senhora que tava comigo tomando remédio. Não saí da minha cidade em busca de um futuro melhor para a minha família para passar sufoco aqui e ainda ficar doente”, lamentou.
Diante da situação, a Prefeitura de Mogi das Cruzes informou que já interditou o restaurante A Fazenda e que a Assistência Social acompanha os trabalhadores que foram levados do alojamento, localizado na Ponte Grande, para o Pró-Hiper. O caso deve ser encaminhado à Polícia Civil, ao Ministério Público do Trabalho (MPT) e ao Ministério do Trabalho e Emprego, que podem instaurar investigação por redução à condição análoga à de escravidão, crime previsto no artigo 149 do Código Penal.














